Esta semana a colunista da Revista Época, Francine Lima, escreveu um texto pra lá de interessante entitulado “Experimentar não basta”. A repórter inspirou-se em eventos esportivos gratuitos, com ênfase na Virada Esportiva e no Dia do Desafio, para lidar com um problema bastante conhecido dos praticantes de Parkour: “Porque as pessoas desistem de se exercitar?”.

Em tempos onde a cultura de eventos de Parkour no Brasil cresce de forma assustadoramente, vale a pena fazer uma reflexão se os objetivos de fato estão sendo atingidos e no que os organizadores podem se empenhar em melhorar.

Destaquei dois excertos interessantes do texto:

“Na Virada, áreas públicas da cidade ganham de repente usos criativos, inspirando quem gosta de esportes a diversificar seus desafios. Uma simples escadaria, por exemplo, se transformou num terreno acidentado a ser transposto usando pés e mãos no chão, como animais, na oficina de Parkour.”

“Os eventos têm sua importância. São uma vitrine. Mostram o que existe, o que pode ser feito, se as pessoas quiserem ou puderem. Mas não oferecem necessariamente as condições necessárias para que a população consuma os produtos da vitrine sempre que quiser. Os índices de sedentarismo no Brasil cresceram nos últimos anos, apesar de toda essa informação na vitrine. Deve estar faltando alguma coisa.”
Para ler o artigo em sua forma original acesse diretamente o site ou então expanda o tópico.

Experimentar não basta
por Francine Lima

 Em que medida os eventos esportivos gratuitos ajudam a combater o sedentarismo?

   
Na semana passada, discuti aqui os motivos pelos quais as pessoas desistem de se exercitar. Um colega veio comentar que ainda não havia descoberto por que não conseguia passar mais de dois meses numa academia. Perguntei: “você gosta?” Ele respondeu: “detesto”. Bem, para mim essa resposta não deixa dúvidas. Ele experimentou e não gostou. Não gosta de academia, e pronto. O colega terá de procurar outro tipo de lugar para se exercitar, outro tipo de atividade. Talvez mais ligada a algum esporte. 
Como descobrir do que a gente gosta, senão experimentando opões diversas? Precisamos nos dar chances de experimentar antes de decidir que gostamos ou não de alguma coisa, certo? Uma maneira de experimentar é comparecer a esses eventos repletos de apresentações e oficinas de esportes. Em São Paulo, há a Virada Esportiva, uma espécie de parque de diversões esportivas temporário, montado uma vez por ano em diversas partes da cidade de São Paulo. O último aconteceu no último final de semana.
Todo ano também temos o SESC Verão, uma programação variada de atividades esportivas e recreativas, aberta ao público, que acontece nos meses de janeiro e fevereiro em todos os municípios paulistas onde o SESC está. E, no Brasil todo, há o Dia do Desafio, data anual em que cidades em vários países se mobilizam para que o maior número de pessoas pratique alguma atividade fisica nesse dia.
Esses eventos são uma maravilha para atrair o público curioso, as famílias que buscam opções de lazer barato na cidade, a molecada cheia de energia que não perde uma novidade. São convites bastante atraentes para quem costuma ficar em casa se movimentar um pouco, de um jeito bem agradável. Mas será que eles servem mesmo para aumentar o número de pessoas fisicamente ativas? Ou será que quem participa é quem já tem o hábito de se mexer? Ou será que experimentar não basta para tomar a decisão de começar e continuar alguma atividade física?

Segundo a prefeitura de São Paulo, a Virada Esportiva teve 3,3 milhões de participantes este ano. Há apresentações fascinantes, acrobacias mirabolantes, oficinas divertidas. Na Virada, áreas públicas da cidade ganham de repente usos criativos, inspirando quem gosta de esportes a diversificar seus desafios. Uma simples escadaria, por exemplo, se transformou num terreno acidentado a ser transposto usando pés e mãos no chão, como animais, na oficina de Parkour. O Vale do Anhangabaú, com todo aquele espaço livre, ganhou rampa de skate, quadras de jogos diversos e até campo de areia para um vôlei de praia. Em pleno centro de São Paulo.

O organizador da Virada Esportiva, Thiago Lobo, me disse que o evento é, em parte, uma vitrine para um programa da prefeitura chamado Clube Escola. São clubes com atividades físicas variadas, gratuitas, voltadas principalmente para crianças e jovens, localizados em bairros populares da cidade. Embora o programa não seja muito conhecido nem divulgado pela mídia, me disse Thiago, os clubes escolas estão funcionando, com suas vagas preenchidas. Thiago diz que também procura trazer para o evento esportes menos conhecidos, com pouco espaço na televisão, e que até inventa suas próprias versões para despertar curiosidade. Uma delas foi a balada esportiva, um jogo em que tudo era fluorescente.

Além das atrações curiosas, a Virada quer mostrar aos paulistanos como a cidade pode ser mais bem aproveitada para a prática esportiva. Não é para voar de asa delta sobre os prédos nem fazer rapel no viaduto, mas para saber que podemos praticar algum tipo de atividade físca em qualquer lugar.

“A atividade física está onde você está”, resume o médico Victor Matsudo, do Agita São Paulo, outro projeto antissedentarismo que se vale de grandes eventos para transmitir sua mensagem. Matsudo acredita que os eventos servem para dar visibilidade ao trabalho contínuo que os profissionais de saúde e as instituições parceiras do Agita realizam o ano todo, há 14 anos. “O evento sozinho não faz nada.”

No caso do SESC Verão, toda a infraestrutura as unidades paulistas do SESC fica disponível para muitos milhares de pessoas se divertirem sob o sol. Piscinas, quadras, pistas, professores, espaço livre. Tudo de graça. Segundo Ricardo Gentil, da área de esportes do SESC São Paulo, o SESC Verão procura promover as atividades físicas oferecidas regularmente dentro das unidades, que hoje tem 60 mil alunos inscritos e um índice de desistência de menos de 10%. Mas as vagas são limitadas. Se a programação surte algum efeito fora do SESC, no sentido de conseguir que as pessoas pratiquem esportes em outros lugares, não se sabe.

Segundo um artigo de Marcos Santos Ferreira e Alberto Lopes Najar, do Laboratório de Atividade Física e Promoção da Saúde da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, publicado em 2005, o resultado desses programas não pode ser medido com base meramente nas atividades realizadas.

“Se um dos objetivos finais do programa é levar as pessoas a adotar a prática de atividades físicas como um hábito de vida, há que se ter indicadores que permitam avaliar até que ponto esse objetivo foi alcançado. Sem dúvida que a mensuração do nível de atividade física da população deve ser um dos indicadores a serem considerados na avaliação de programas cujos objetivos são ampliar a adesão à atividade física.”

Os eventos têm sua importância. São uma vitrine. Mostram o que existe, o que pode ser feito, se as pessoas quiserem ou puderem. Mas não oferecem necessariamente as condições necessárias para que a população consuma os produtos da vitrine sempre que quiser. Os índices de sedentarismo no Brasil cresceram nos últimos anos, apesar de toda essa informação na vitrine. Deve estar faltando alguma coisa.

Diz o artigo que citei acima que “a probabilidade de que a atividade física passe a fazer parte da rotina de um grupo, por exemplo, parece-nos aumentada se forem realizadas mudanças no entorno social, desde o desenvolvimento de uma consciência coletiva no que toca ao reconhecimento de sua importância até alterações nas relações entre tempo de trabalho e lazer, o que implica repensar fatores como jornada de trabalho, rendimentos, sistema de transporte público, oferta, distribuição e acessibilidade de equipamentos desportivos e espaços públicos para a prática de atividades físicas, dentre outros.”

Seria legal se pudéssemos experimentar e já receber um guia de como transformar a experiência num hábito, não? Antes fosse tão simples.

(Francine Lima é reporter da Época e escreve às quintas-feiras)