Além da divulgação realizada semanas atrás no Jornal da Globo, os tracers de Brasília deram origem a uma matéria on-line bastante completa e elucidativa. São tomados pontos de vistas de diferentes praticantes (incluindo grandes amigos nossos como Pedro Santigas, Fillipe Ramos e Leonardo Carega) sobre diversos assuntos. Há ainda o ponto de vista técnico de um ortopedista salientando que os riscos encontrados na prática do Parkour são os mesmos que existem em outras atividades.

Vale a pena dar uma conferida pois o texto está muito bem escrito e as informações foram muito bem transmitidas.

Veja a matéria no site (e o video) ou expanda o tópico para ler aqui mesmo.

Imagine a sua casa e o lugar onde você trabalha, estuda ou passeia. Em geral, o caminho entre um e outro é feito de carro, ônibus ou a pé. Muitas vezes, o trajeto é recheado de curvas, contornos e desvios daquilo que constitui a rota mais curta. Mas não para quem faz parkour. Os exímios praticantes da arte do deslocamento correm, escalam, equilibram-se e saltam para superar os obstáculos nos espaços urbanos e conseguir aquilo que a tecnologia não foi capaz: a linha reta.

Recentemente, muitos aderiram à modalidade, ao ver vídeos na internet e filmes que mostram os praticantes de parkour — ou traceurs, na linguagem deles — em movimento nas ruas, nos muros, nas escadas, nas árvores e no que mais estiver pela frente. “Em toda a cidade lá estávamos; lá estava o parkour. Você precisa apenas olhar, imaginar, igual a uma criança”, afirmou uma vez o francês Sébastien Foucan, um dos fundadores da prática.

Partilhando de elementos comuns a técnicas tão diversas como as artes marciais, a ginástica artística e o atletismo, o Parkour não precisa de estruturas como pista, tatame ou aparelhos. Tampouco algum equipamento. Basta o próprio corpo. “O nosso objetivo é transitar de um ponto ao outro de forma fluente, rápida e segura”, resume Fillipe Ramos, de 24 anos, um dos integrantes do grupo BR Traceur, que reúne os praticantes em Brasília.

“Para isso, precisamos que o nosso corpo esteja forte e preparado o suficiente. Assim, conseguiremos nos movimentar sem causar tanto impacto e sem nos machucar”, ensina Felipe citando as duas máximas da prática: être et durer (ser e durar) e être fort pour être utile (ser forte para ser útil). Segundo ele, para quem começa a praticar, é importante fazer um fortalecimento dos músculos antes de ir se aventurando pelas ruas. “Depois, com o tempo, com a repetição dos movimentos, você acaba tendo um autoconhecimento do seu corpo e sabendo os seus limites, até onde pode chegar”, diz ele.

“É muito legal quando você consegue fazer um movimento que achava difícil ou impossível. Às vezes, a gente tem a capacidade física, mas não psicológica, por medo de altura ou outra coisa. A sensação de superar isso é ótima”

Ademias Batista, praticante da modalidade

Duas vertentes

Os franceses Sebastién Foucan e David Belle firmaram as primeiras bases do parkour na década de 1980. Com a divergência entre eles, no fim dos anos 1990, surgiram modalidades distintas. Foucan adotou o free running, “corrida livre” na tradução literal, com movimentos de fins estéticos, plásticos, acrobáticos — não necessariamente os mais eficazes para transpor um obstáculo. Belle seguiu com o parkour, cujo percurso visa à linha reta: a maior eficiência possível ao deslocar-se entre dois pontos. 

Saiba mais

Os treinos ocorrem às terças e quintas, na 303 Sul, às 19h. Aos fins de semana, são combinados pela comunidade do Orkut “Parkour Brasília”. O maior encontro da cidade entre os praticantes do Parkour é o Partour, realizado há dois anos pela BR Traucer. A associação Movimente, fundada por Fillipe e amigos, pretende fazer oficinas abertas a iniciantes em janeiro (www.movimente-ong.blogspot.com). Pelo site www.decimadomuro.com é possível marcar treinos por e-mail, com praticantes mais experientes.

Palavra do especialista

“Considero o parkour uma prática com risco de lesões igual a qualquer outro esporte. A diferença, a meu ver, é que exige muito condicionamento, habilidade em comparação com muitas atividades físicas. É de arrepiar alguns movimentos que eles fazem pela dificuldade. Como não é um esporte institucionalizado, com regras e também não tem um local próprio para ser praticado, como uma quadra, por exemplo, os praticantes estão sujeitos a se machucarem com certa facilidade por estarem nas ruas. Mas não tem uma lesão típica dessa prática.” Weldson Muniz, ortopedista 

 A sensação de transpor o impossível

Praticante do parkour há cinco anos, Leonardo Carega revela que os movimentos começam a ficar mais elásticos com a prática. “A naturalidade vem aos poucos. Você percebe e aprende com o tempo que os movimentos dependem muito mais de técnica do que de força”, ensina. “Vi uma reportagem sobre o assunto e aí decidi assistir a alguns vídeos. Achei tudo muito incrível e quis tentar fazer”, conta ele, que afirma ter sofrido bastante no início. “Nunca me machuquei muito sério. Mas, no início, senti dores. Quase não conseguia andar. Agora, são mais calos nas mãos e alguns arranhões”, garante.

Para o traceur Ademias Batista, 18 anos, uma das coisas mais gratificantes do parkour é conseguir superar medos e limites. “É muito legal quando você consegue fazer um movimento que achava difícil ou impossível. Às vezes, a gente tem a capacidade física, mas não psicológica. A sensação de superar isso é ótima”, diz.

Preconceito
Segundo Fillipe Ramos, muitas pessoas que veem os praticantes de parkour nas ruas ainda estranham a prática. “Tem gente que acha que é vandalismo, que a gente está ali porque não tem mais nada para fazer. Mas não é verdade. Todo mundo estuda, trabalha. Nos reunimos para praticar o parkour porque para a gente é como se fosse uma filosofia de vida”, comenta. Para ele, os vídeos na internet que mostram os tombos e as maluquices dos traceurs não correspondem à verdadeira intenção. “Sempre fazemos tudo com cuidado, evitamos nos machucar até porque o nosso lema é “durar” para poder continuar praticando”.

Parkourpédia 

 » Le Parkour pode ser entendido como “o percurso”, com “o” mudo, expressão cunhada por Foucan que vem de “parcours”
» L’art du déplacement “arte do deslocamento” em francês, também designa o parkour
» Trace-out sinônimo para parkour
» Traceur o praticante de parkour
» Parkourista outra designação para traceur
» Precision salto estático de precisão de um ponto a outro, geralmente uma borda ou lugar pequeno
» Traceuse a praticante de parkour
» Free runner praticante de free running
» Clã (ou crew) grupo seleto de praticantes
» Migrar quando um grupo de traceurs em um treino decide se dirigir para outro local onde é possível treinar movimentos isolados do parkour
» Flow o movimento com fluência, buscado pelos traceurs
» Passement qualquer movimento no qual se sobrepõe um obstáculo
» Big Jump salto de alturas elevadas
» Saut de bras salto que acaba com o traceur pendurando-se e fixando-se num obstáculo