O site Mercado Ético divulgou uma análise bem legal realizada por Bruno Capelas sobre a dissertação de mestrado Cidade lúdica: um estudo antropológico sobre as práticas de Parkour em São Paulo”  de Rafael Adriano Marques.

Muito interessante perceber que os trabalhos realizados em cima do parkour já servem como bibliografia para demais projetos. Isso consolida cada vez mais a importância do estudo e do aprimoramento das pesquisas de campo para compreender melhor a prática que vivenciamos dia a dia.

Para baixar a dissertação de mestrado basta ir na nossa seção de downloads. E para ler o texto bem legal do Bruno, basta acessar o link ou expandir o tópico.

Parkour explora infinitas possibilidades do espaço urbano

 

Bruno Capelas, da Agência USP

A anticompetitividade e o fato de explorar a cidade com possibilidades infinitas de movimento por meio de um olhar lúdico são as principais caracteristicas do parkour. Conhecido mundialmente por vídeos espalhados pela internet, o parkour (PK) é uma prática esportiva baseada em superar obstáculos, como escadas, muros e árvores, com velocidade e eficiência, por meio de movimentos simples como escalada, corrida e saltos. “Trata-se de uma prática anticompetitiva, que não se baseia apenas em um espaço delimitado, como uma quadra ou uma pista”, aponta o antropólogo Rafael Adriano Marques, autor de um estudo sobre o tema.

Criado em um subúrbio francês pelo esportista David Belle, entre o fim dos anos 1970 e o começo dos 1980, o parkour pode ser considerado uma novidade por aqui: “No Brasil, ele existe apenas há cinco ou seis anos.”

A ausência de competitividade e a postura inovadora com relação ao espaço não são obra do acaso, garante Marques. Elas remontam ao “mito de origem” da atividade, cujos movimentos são inspirados no Método Natural de Educação Física, desenvolvido pelo educador físico e esportista francês Georges Hébert e utilizado pelas Forças Armadas Francesas – às quais pertencia o pai de Belle, o bombeiro Raymond Belle . O Método Natural propunha uma contraproposta à recente esportivização da ginástica, e se baseava nos movimentos do corpo humano, como correr, saltar e nadar, sem a utilização de equipamentos. Além disso, o sistema criado por Hébert trouxe à atividade a disciplina dos movimentos: ao contrário do que acontece no freerunning, uma derivação do parkour que foi criada pelo ator e esportista Sébastien Foucan , o PK preza por ações econômicas e eficientes, sem floreios, procurando evitar o risco de ferimentos nos traceurs, que é o nome dado aos praticantes da atividade.

Por outro lado, diz o pesquisador que “havia nos subúrbios franceses – e existe até hoje – uma falta de espaços apropriados para o lazer e a insatisfação com o lazer estabelecido – uma boa política para o assunto vai além de espalhar ‘quadrinhas’ pelos lugares. É justamente esse sentimento que traz a centelha nos jovens de criar uma nova forma de lazer, distinta até do que costuma se pensar sobre o subúrbio francês”, explica o pesquisador. A prática de um esporte como esse, reforça Marques, é algo que também pode unir as pessoas, fugindo do discurso apocalíptico que envolve a cidade como espaço de não-convivência.

Apesar do que pode parecer, o PK não é um esporte radical. Vários são os aspectos que estabelecem essa diferença: “Ele não tem competição, nem que seja por notas; não tem um estilo de vida próprio e também não contém a ideia de se arriscar. Pelo contrário: uma das frases que mais se ouve dos traceurs é ‘conheça o seu limite’”. A forma de divulgação também foi diferente: os esportes radicais, como o surf e o skate, se tornaram conhecidos a partir de vídeos, filmes e programas de TV. Já o parkour, como já dito, popularizou-se pela internet. “Até mesmo os principais grupos praticantes aqui [no Brasil] se agregaram online, especialmente por intermédio do [site de relacionamentos] Orkut”, diz o antropólogo.

Inserir-se

Além das pesquisas bibliográficas, uma parte considerável do trabalho de Marques é baseado na experiência que ele próprio teve como praticante de parkour durante um ano e meio. “Praticar foi fundamental. Pude perceber como eu estava inserido no jogo. A única forma de se inserir é praticando, e a prática mudava a cidade e o meu corpo – até mesmo para uma pessoa sedentária e com falta de coordenação motora, como eu”. O aspecto físico corporal é outro ponto relevante do PK para o pesquisador. “O nosso corpo é treinado para fazer os gestos corretos, em uma educação que os limita. Descer uma escada pelo corrimão, por exemplo, é uma transgressão. Já no parkour, fazer isso é algo comum, cotidiano, e muitas vezes, mais divertido.”

Marques aponta que outro ponto considerável sobre o parkour é que ele pode ser praticado por pessoas de todas as idades – especialmente as crianças. “Elas não têm ainda muito dessa educação corporal formada, então se liberam mais para os movimentos. O PK tem muito disso de infantil, de brincadeiras, de traçar caminhos em espaços um espaço sem respeitar formas estabelecidas de locomoção.”

O trabalho de Marques chama-se Cidade lúdica: um estudo antropológico sobre as práticas de Parkour em São Paulo, e foi realizado enquanto ele era pesquisador do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU). Orientado pelo professor José Guilherme Cantor Magnani, é resultado de uma dissertação de mestrado em Antropologia Social, defendida em fevereiro de 2011 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.