10066_359325337511867_1432043458_n

O portal Primeira Pauta deixou hoje o Parkour brasileiro mais feliz. Jackson Ribeiro explodiu todo o cosmo do corpo dele pra dar origem a essa belezura aí embaixo! Não me recordo atualmente de ver algo tão bonito e tão original sobre Parkour. Acredito que a sobriedade e a sinceridade que o entrevistador sentiu ao conversar com ele pode ser sentida também por qualquer um que ler a matéria. Que outros sigam esse exemplo e mostrem valores que a cada dia se tornam mais esquecidos…

Parabéns meu velho!

O que você pensaria se visse um bando de caras meio mal vestidos, rindo e conversando numa praça qualquer, dando cambalhotas, saltos mortais, correndo e transpondo obstáculos com a mesma naturalidade com que você sobe na calçada? Levando em conta que Joinville é um lugar de “gente ordeira e trabalhadora”, não seria difícil ouvir coisas do tipo: “Olha aqueles vândalos ali! Será que eles não estão usando drogas?” Às vezes os comentários condizem com a realidade, mas nem sempre. Especialmente se o grupo que você estiver assistindo for o Parkour Joinville.

Jackson Ribeiro, ou Jack, como gosta de ser chamado, tem 24 anos e há seis pratica o esporte. Desde criança já gostava de subir em árvores. Um dia, através de um vizinho, conheceu a modalidade. “O parkour para mim, mais do que qualquer outra coisa, se tornou um estilo de vida,” acrescenta o rapaz.

Como um praticante experiente, o jovem faz uma introdução ao universo da sua arte. “A ideia original do parkour é treinar para ser forte, para o que possa acontecer no meu dia a dia.” E é para a vida cotidiana que, segundo ele, seus adeptos procuram se desenvolver. “Se minha casa pegar fogo, se eu precisar fugir de um cachorro, estarei pronto,” assegura. Numa ocasião, foi abordado por um sujeito que queria roubá-lo. Numa fração de segundo, Jack deu um pique de uns 200 metros, e mesmo de bicicleta, o assaltante não conseguiu alcançá-lo. Ele não aconselha ninguém a fazer o que ele fez, mas se revela aliviado por ter escapado ileso do incidente.

Para quem fique impressionado com os movimentos do esporte − a internet está repleta de vídeos dos mais fantásticos de praticantes ao redor do mundo − o rapaz avisa que o objetivo não é aprender a dar saltos mortais ou coisas do tipo. “O que conta é a utilidade, o modo mais rápido de ultrapassar certo obstáculo.”

Esta notoriedade meio espetaculosa da modalidade desde sempre foi um problema. Muitos são atraídos por essa plasticidade, e chegam empolgados para realizar os movimentos dos mais absurdos. Quando os veteranos ensinam que precisam começar de baixo, vários dos novos adeptos desistem dos treinos. Isso acaba frustrando os integrantes mais velhos, que pacientemente se aplicam em tentar ajudar aos novatos. Mesmo assim, eles mantêm uma página no Facebook. Lá eles compartilham vídeos, experiências, e os novos interessados podem conhecer o trabalho do grupo em Joinville.

Outro principio original do parkour é a não competição. Ele é um esporte sem rivalidade. O objetivo não é ganhar de outro, mas vencer a si mesmo. E é apoiando-se mutuamente que cada um se supera. Daí surge uma outra característica, muito forte no grupo do qual Jack participa. “Nós temos um laço de amizade muito forte que se estende para fora do treino.” No Parkour Joinville, todos são amigos, e todos adoram estar juntos. “Por que não competimos, temos uma ligação muito grande”, completa.

Em Joinville, os integrantes do modalidade se reúnem em dois lugares mais frequentemente. Para treinar, o Ginásio Mario Timm, coisa de dois meses para cá. Eles utilizam o local desde que o professor Valdelar dos Santos Junior, mais conhecido como Juco, se incumbiu de orientá-los, através dos fundamentos da ginástica olímpica. Para praticar o esporte, eles preferem lugares públicos, seu habitat natural, como a praça Tiradentes no Floresta. “A gente gosta de lá por que é permitido, por que tem polícia também.” Por outro lado, acabam sendo hostilizados por quem não conhece o esporte. “As pessoas tem muito preconceito, acham que vamos destruir as coisas, marginalizam a gente.”

Sentado no chão mesmo, com as pernas cruzadas em posição de lotus, Jack concede entrevista fazendo lembrar um iogue. Suas palavras parecem confirmar o que revela sua postura. Foco, pensamento rápido, criatividade, agilidade, persistência e força física, são vários os benefícios que ele enumera e que lhe trouxeram os anos, e quem tem tudo a ver com artes marciais ou filosofias de vida. Mais adiante Jack fala sobre autonomia, o que traz a memória uma outra palavra, nada menos do que liberdade.

Origem e filosofia do esporte

O parkour se assemelha a uma brincadeira de crianças. Correndo, pulando, dando cambalhotas… Foi deste modo que, nos subúrbios de Paris, em meados dos anos 80, um grupo de amigos se especializou cada vez mais nesse tipo de estripulias. Por 10 anos mais ou menos eles mais do que se divertiram, mas aprimoraram as técnicas do esporte.

Davi Belle e Yann Hnautra foram os caras que tiveram o insight de onde surgiram outros nomes ou modalidades distintas, mas que bebem da mesma fonte, como Art of Movement, Freerunning ou L’Art Du deplacement (Arte do Deslocamento). Eles foram orientados por um militar chamado Raymond Belle, pai de David. Do exército ele havia trazido o Parcours du Combattant, ou “pista de obstáculos militar”. De parkours, que quer dizer “percurso”, veio o nome parkour.

O grupo ao qual David e Yann pertenciam tinha o nome de Yamakasi, palavra de origem Lingala que corresponde a “homem forte, espírito forte”, e que expressa muito claramente o espírito e a intenção da modalidade. Seus conterrâneos os chamavam de homens selvagens, e eram mesmo. Comparados ao homem civilizado e sedentário da atualidade, eles eram bem diferentes, muito mais livres e fortes.

Saiba mais:
Quais os benefícios do Parkour

Matéria original:
http://primeirapauta.jor.br/2014/10/04/parkour-uma-filosofia-marginalizada/